O presidente do Senado na história política brasileira: 55 anos servindo ao Brasil

José Sarney é o mais antigo entre os congressistas - e também entre os senadores - do período republicano da história do Brasil. São 54 anos de vida pública, 43 dos quais vividos no Congresso Nacional, onde exerce com calma e paciência a difícil arte da política do entendimento e da conciliação, em favor do país e de dias melhores – para todos.
Pinheiro fica na Baixada Maranhense, região de campos alagados entre São Luís e a fronteira com o Pará, onde começa a Amazônia. Terra de gado, também alguns engenhos ali se instalaram, produzindo açúcar mascavo, mel e cachaça. Em um deles, o Engenho Queimado, nasceu Sarney de Araújo Costa, que se casou com a pernambucana, Kyola Leopoldina de França Ferreira. O primeiro filho do casal – José, que depois seria conhecido como José Sarney -- foi o 31º Presidente da República do Brasil.
José nasceu em 24 de abril de 1930, justamente no ano em que um maranhense ocupou a presidência da República por 11 dias - Augusto Fragoso governou o Brasil, como chefe da Junta Governativa Provisória, de 24 de outubro a 3 de novembro de 1930.
O filho de Sarney e Kyola passou seus primeiros quatro anos de vida em Pinheiro. Depois, foi para São Bento, município vizinho, residência de seus avós paternos, José Adriano e Madona. Ali viveu até os oito anos. O avô era professor primário (mestre escola) e arrecadador de impostos, a avó fazia doces para vender, a mãe costurava e o pai era promotor público.
Aos cinco anos José (que então era o José do Sarney) foi alfabetizado pela professora Cota Teixeira. Aos seis começou a buscar livros na estante de seu avô, Zé Adriano. O Almanaque de Bristol, era uma paixão. A publicação informava sobre luas, marés, doenças e indicava os remédios. Mas José também era leitor assíduo da Biblioteca Popular-- folhetim anual, com curiosidades, sobre história, saúde, artes, etc. – e não dispensava os livros de poemas. Casimiro de Abreu e os portugueses Guerra Junqueira e Alexandre Herculano eram os preferidos.
Líder estudantil
Em janeiro de 1942 José e o irmão Evandro foram para São Luís para fazer o curso ginasial no Liceu Maranhense. Foi justamente ali que Sarney começou a desenhar também seu caminho na política. Enfrentou e venceu duas campanhas para presidir o Centro Liceísta (diretório acadêmico da escola), em 1945 e em 1946.
Aos 15 anos era líder estudantil. E em 45, no final do autoritário Estado Novo de Getúlio Vargas, Sarney enfrentou breve prisão. No Teatro Arthur Azevedo, ante a entrada do interventor no Maranhão, Paulo Ramos, puxou o coro de “abaixo a ditadura”! Foi em cana.
Quatro anos depois, já na faculdade de Direito e como dirigente da União Maranhense dos Estudantes (UME), representou o Maranhão na União Nacional dos Estudantes (UNE). Era o começo da carreira política de Sarney. Em 1954, ainda na ala rebelde do PSD, enfrentou sua primeira candidatura a deputado federal. Bem votado, mas sem conseguir se eleger, Sarney, como suplente, em 1955 e 56, esteve por curtos períodos na Câmara Federal. Mas foi em 1958 que, como candidato da ala jovem da UDN, conquistou vaga de deputado federal pelo Maranhão.
A Bossa Nova
A UDN tinha, então, uma brilhante bancada do Congresso Nacional, que era liderada pela “Banda de Música” -- ala composta de atuantes e barulhentos parlamentares. Afonso Arinos era o líder da bancada, onde se destacavam também Aliomar Baleeiro, Adauto Lúcio Cardoso, Bilac Pinto, Prado Kelly, Afonso Arinos, Milton Campos, Pedro Aleixo, José Agripino. Em 57, Sarney, um dos vice-líderes do partido, integra o grupo de renovação, batizado de Bossa Nova da UDN. Era o governo Juscelino Kubitschek. A UDN estava na oposição. Sarney aprendia a navegar nas águas sempre intranqüilas da política nacional.
Em 1960 a UDN, coligada com o PTB, chegou à Presidência da República, elegendo o paulista Jânio Quadros, tendo como vice o gaúcho João Goulart, o Jango. Jânio renunciou sete meses depois da posse, surpreendendo e colocando em crise o cenário político brasileiro. Vencidas muitas dificuldades políticas, Jango assumiu o governo, mas também não conseguiu completar o mandato. Em 1964, um golpe militar foi gradualmente afastando a classe política do comando do país.
Nas eleições de 1965 ainda havia esperanças de retomada do caminho democrático. Sarney saiu candidato ao governo do Maranhão em campanha disputadíssima. O adversário era Renato Archer, candidato da coligação PTB—PSD. Sarney, da UDN, inovou. Percorreu o estado de ponta a ponta para, em contato direto com a população, conhecer dificuldades e eleger prioridades.
Numa eleição acirradíssima, que exigiu proteção de tropas federais, Sarney venceu com 120 mil votos, contra 103 mil dos outros candidatos. O Maranhão carecia de tudo e o jovem governador quis registrar o que encontrou. Assim, convidou o também jovem cineasta baiano, Glauber Rocha, para documentar a situação de penúria e isolamento do estado. Resultou no filme “Maranhão 66”, retrato com som e imagem das dificuldade que Sarney iria enfrentar. (Veja texto Sarney Governador).
Em 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional nº 5, fechou o Congresso Nacional, suspendeu direitos civis fundamentais, inaugurando o período mais difícil da história brasileira contemporânea.
Sarney governou o Maranhão até maio de 1970, quando saiu para disputar uma cadeira no Senado Federal. Foi eleito senador pela Arena com o dobro dos votos de seu adversário. Começava novo aprendizado. Ao seu estilo, sem confrontos, trabalhou pela restauração do regime democrático. Conciliador e paciente, atuou nos bastidores pela suspensão do AI-5 e contra as grandes alterações introduzidas pelo regime militar na Constituição, sobretudo nas atribuições e na autonomia do Poder Legislativo. Mais tarde, já como líder do governo, relatou o projeto que enterrou o AI5, em dezembro de 1978.
No último dos governos militares, o do general Figueiredo, que sucedeu o General Geisel, houve a anistia política -- 28 de agosto de 1979 -- e o fim do bipartidarismo. O MDB, de oposição, passou a ser PMDB, e a Arena, da situação, virou PDS. O antigo partido de Getúlio Vargas (PTB) foi subdivido em duas correntes trabalhistas: PDT e PTB. Nasceram também o Partido Popular, PP, que reuniu os moderados do antigo MDB, em torno dos senadores mineiros Tancredo Neves e Magalhães Pinto. Na São Paulo industrializada foi criado o Partido dos Trabalhadores (PT), reunindo lideranças sindicais – Lula à frente -, intelectuais, artistas e oposicionista de todas as idades. Eram passos importantes da abertura para o reencontro do Brasil com a democracia.
Sarney esteve no Senado até o final da ditadura militar – dos anos mais duros à abertura política, que em 1985, por força do destino, acabou fazendo dele o primeiro presidente civil depois de 20 anos do regime militar.
O dissidente
Em 1985, haveria eleições para presidente da República – ainda indiretas, decididas por um colégio eleitoral criado pelos militares. Os tempos de abertura política abriam espaço - inclusive de vitória – para um civil. Sarney presidia o PDS, que trabalhava várias possibilidades de candidaturas: o ministro Mario Andreazza, Marco Maciel, senador por Pernambuco, Aureliano Chaves, vice-presidente da república. Correndo por fora, apareceu o ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf.
O grupo de Sarney no PDS avaliava que candidatura de Maluf seria um empecilho para o projeto de retomada da democracia. Franco atirador, ele ameaçava o trabalho pacientemente estruturado. O presidente general Figueiredo, que não gostava da convivência com políticos, não conseguiu comandar ou articular seu processo sucessório. E em dezembro de 1983, com discurso na TV, jogou a toalha: deixava nas mãos do partido a escolha do candidato a sua sucessão.
Maluf lutava para impor-se como o candidato do governo. E os descontentes do partido iniciaram negociações com a oposição, comandada pelo deputado paulista Ulisses Guimarães, presidente do PMDB e Tancredo Neves, então governador de Minas. Pelos dissidentes atuavam Aureliano Chaves, mineiro e vice-presidente da República, Antônio Carlos Magalhães, governador da Bahia e Marco Maciel, de Pernambuco.
Enquanto isso, os brasileiros pediam nas ruas Diretas Já. Esse sonho era nutrido por proposta de emenda constitucional do deputado mato-grossense Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições diretas para a Presidência da República. Essa esperança movimentou o país, com comícios que reuniram multidões. Mas, em abril de 1984, por pequena margem de votos, o governo derrotou a emenda Dante, na Câmara dos Deputados. A vitória da opinião pública, no entanto, era insofismável. O Brasil queria o fim da ditadura e a urgente redemocratização.
Maluf ganhava corpo. Para evitar a cooptação mercantil da convenção do PDS, Sarney propôs então que se realizasse uma prévia eleitoral entre os candidatos governistas. Mas, como o temido Serviço Nacional de Informações (SNI) garantia que a prévia favoreceria o vice, Aureliano Chaves, Figueiredo postou-se contra a sua realização.
Sarney deixou o PDS. Era 11 de junho de 1984. Uma semana depois, os dissidentes do partido criaram a Frente Liberal. Sabiam que representavam parcela expressiva do Colégio Eleitoral -- 52 parlamentares. Votos mais do que suficientes para assegurar vitória na eleição indireta. (O Colégio Eleitoral era composto por 686 delegados -- 381 do PDS, 273 do PMDB, 30 do PDT, 14 do PTB e 8 do PT. A mudança de 18 votos da situação daria a ela a maioria necessária para a oposição eleger o novo presidente da República).
Uma semana depois da saída de Sarney do PDS os governadores do PMDB lançaram Tancredo Neves à candidatura indireta. No dia seguinte, Sarney, Marco Maciel e Aureliano Chaves, dissidentes do PDS, selaram acordo com o governador mineiro. PMDB e a Frente Liberal formaram Aliança Democrática para disputar a presidência com Paulo Maluf, candidato do PDS governista. Sarney foi o escolhido para compor a chapa com Tancredo. A campanha empolgou o Brasil e no dia 15 de janeiro de 1985 Tancredo venceu Maluf no colégio eleitoral por folgada vitória -- 480 votos contra 180.
O presidente
A posse de Tancredo-Sarney aconteceria em 15 de março. Três dias antes Tancredo começou a ter febre. O diagnóstico era de faringite. Na noite do dia 14 foi operado de emergência no Hospital da Base de Brasília. Tinha uma diverticulite grave. A má notícia chega aos salões de Brasília, onde se vivia a expectativa da festa de posse no dia seguinte. Na sala de espera do hospital, pequeno grupo esperava ansioso o resultado da operação do presidente eleito e discutia o que fazer. Uns que desejavam a posse do presidente da Câmara, Ulisses Guimarães, também presidente do PMDB. Outros sustentavam que a regra constitucional impunha a posse do vice-presidente eleito, José Sarney. Venceram os constitucionalistas. Sarney seria empossado.
Tensão e expectativa deram o tom das duas cerimônias - a posse no Congresso Nacional e a investidura no Palácio do Planalto. O general Figueiredo, repetindo o gesto de Newton Bello na transmissão da chefia de governo do Maranhão, não passou o cargo e a faixa presidencial a José Sarney.
Tancredo morreu em 21 de abril de 1985. No dia seguinte o Congresso Nacional efetivou José Sarney, como o 31º presidente do Brasil, marcando o ponto final no longo período autoritário e o começo a Nova República, que tinha como principal promessa e missão devolver a democracia ao Brasil. (Veja texto 25 anos de Democracia).
Devoto de São José, protegido pelas graças da Irmã Dulce, o maranhense de Pinheiro venceu as todas as muitas dificuldades vividas nos seus cinco anos na Presidência da República. Venceu principalmente a batalha em favor da redemocratização do país, que passou a um sucessor eleito pelo voto direto.
O Amapá
Cumprido o dever na Presidência da República que o inusitado lhe apresentou como missão a desempenhar, José Sarney voltou ao Congresso três vezes eleito senador pelo Amapá – em 1990, 1998 e 2006. Três vezes também foi escolhido por seus pares para presidir o Senado Federal – 1995 a 1997, 2003 a 2005 e neste novo mandado que se iniciou em 2009 e que irá terminar em 2011.
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