Após aproximadamente duas semanas de trabalhos efetivos da CPI do Cachoeira, a dinâmica da comissão já mostra divisões em seu plenário. De um lado, um grupo composto por parlamentares do PT e alguns integrantes da base aliada esforça-se para usar a comissão como um meio para atacar a Procuradoria-Geral da República, a imprensa e integrantes graduados da oposição. Uma outra ala, formada por deputados e Senadores de siglas governistas que têm uma atuação autônoma e da oposição, busca aprofundar as investigações sobre a atuação da construtora Delta e as amplas ligações do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Num cenário em que alguns dos integrantes da CPI poderão ter dificuldades em erguer a bandeira da ética por terem sido citados em recentes escândalos de corrupção, há ainda iniciativas visando a minimizar o impacto das investigações sobre a classe política ou promover ataques ao governo federal. Grande parte do embate entre esses grupos se deu nos últimos dias a portas fechadas, nas sessões secretas que a CPI realizou para ouvir os delegados da Polícia Federal responsáveis pelas operações que levaram Cachoeira à cadeia. Nessas discussões, uma outra particularidade do perfil dos integrantes da comissão transbordou do campo teórico para o cotidiano da CPI: parte dos membros do colegiado já foi citada em outros escândalos políticos do passado, fato que pode ser usado pelos parlamentares na tentativa de desclassificar a atuação de adversários. Na quinta-feira, por exemplo, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e o Senador Humberto Costa (PT-PE) tiveram uma intensa discussão. Depois de Onyx ter dito que a CPI se tornaria um circo, Costa afirmou que já virara. Dizendo que o petista teria lhe chamado de palhaço, Onyx chamou-o de sanguessuga. Em resposta, Humberto Costa declarou que não havia sido citado no escândalo dos sanguessugas, mas nos dos "vampiros" e que havia sido inocentado pela Justiça. Outros integrantes da CPI podem ser alvos do mesmo desgaste. O Senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), por exemplo, sofreu um impeachment quando era presidente da República após ser investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Ele é um dos principais responsáveis pelos ataques ao Ministério Público. A CPI do Cachoeira conta também com os Senadores Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), que assumiu uma vaga no Senado após ser liberado pela Lei da Ficha Limpa, e Jayme Campos (DEM-MT), citado no escândalo dos sanguessugas. Já o deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) é acusado de ter ligações com um dos operadores de Cachoeira. Os parlamentares negam o envolvimento com irregularidades. "Hoje se organizou uma maioria que percebeu que queriam desviar o foco da CPI para a imprensa e o Ministério Público. A vantagem hoje é de quem quer a investigação de verdade", afirmou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). "Normalmente, a pessoa que tem uma consciência culpada dificilmente vai parar numa CPI desse tipo. Ou a pessoa já cumpriu a sua pena, como o Collor de Mello, ou foi absolvida." Nos primeiros dias de CPI, acrescentou o parlamentar do PDT, a expectativa era de que a comissão pouco aprofundasse o material já produzido pelas operações da Polícia Federal. Nos últimos dias, porém, a CPI recebeu os delegados responsáveis pelas investigações e seus integrantes perceberam que poderão apurar melhor as relações do grupo de Cachoeira com a Delta Construções e autoridades de governos municipais, estaduais e federal. A empreiteira nega integrar o esquema investigado. Hoje, a CPI iria ouvir o depoimento de Cachoeira, que foi preso sob a acusação de chefiar um esquema ilegal de jogos de azar com conexões no setor público e na iniciativa privada. "A CPI tendia a ser modorrenta", comentou Miro Teixeira, para quem já se pode apontar a ligação da Delta com o crime organizado. "Tentaram mudar a pauta, mas não pegou." Para o Senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), o sucesso da CPI depende da pressão da opinião pública. "Um primeiro grupo quer uma CPI da vingança, outro quer minimizar o impacto para a classe política e o terceiro está mais livre para investigar", comentou, lembrando que há ainda 28 malotes de materiais apreendidos na Operação Monte Carlo que ainda não foram analisados pela PF. "O nosso desafio é garantir a amplitude. Temos que ampliar as investigações sobre a Delta." O PT obteve relativo sucesso nesta etapa inicial da CPI. O partido conseguiu colocar em evidência seus questionamentos à atuação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Eles querem saber por que o chefe do Ministério Público demorou a autorizar as investigações contra o Senador Demóstenes Torres (sem partido-GO, ex-DEM). Em sua defesa, Gurgel diz que visam a fragilizá-lo antes do julgamento do mensalão. Os governistas também conseguiram deteriorar a situação política do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Por outro lado, os petistas e seus aliados até o momento não conseguiram atingir setores da imprensa. Além disso, cresceram as suspeitas sobre a Delta Construções, uma das principais responsáveis pelas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A oposição pretende explorar esse flanco para atingir o governo federal. (FE)

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