sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Quem tem medo de Hillary


O líder, ao contrário do que parece ao senso comum, não é aquele que é movido pelo verbo mandar. Ser líder é muito mais a capacidade de coordenar do que a de impor sua vontade, como o iluminado que determina caminhos. A função de liderar implica ter ouvidos abertos e ouvir sempre, e mais, falar o necessário e buscar a unidade para agir. É certo que a unidade não é clone da unanimidade, mas opiniões, quaisquer que sejam, não devem ser desprezadas. O Marquês de Pombal, iluminista que transformou Portugal como ministro de D. José I, quando indicou seu sobrinho Melo e Póvoas para governar a província de São José do Rio Negro, depois chamada de Amazonas, ao transferi-lo para o Maranhão escreveu-lhe uma carta sobre a arte de governar. São ensinamentos de bom senso que valorizam o ato de mandar, que ele considera muito mais uma tarefa de compor consensos do que de usar da força. Dizia ele que quem governa tem de ter dois ouvidos, um para ouvir o ausente e outro o presente. Que o governante deveria ter espinhos nos ouvidos, para que as coisas não entrassem de uma vez só, ficassem espetadas para serem melhor analisadas. Na minha experiência de vida, muitas vezes tive oportunidade de comandar, mas sempre me vali da prudência, da paciência, da busca da conciliação e do recolhimento de opiniões. Estas considerações estão sendo feitas pela decisão de Barack Obama de constituir um dream team, sem o medo de dividir suas responsabilidades com grandes e experimentadas figuras. Nesses casos, a sedução é nivelar por baixo e este é o caminho mais curto para decepções e fracassos. Obama mostra que tem não só o carisma, mas a coragem e a certeza de sua estrutura sem receios de comandar comandantes. É um bom sinal e também a constatação de que tem segurança pessoal, talento e não sofre de complexos. Opiniões fortes, defesas veementes de idéias nunca prejudicam o ato de decidir e mostram que essas opiniões são úteis e dão segurança sobre o caráter de quem opina. A subserviência é o maior perigo para chegar-se a uma decisão, que tem muito de uma construção coletiva. Quanto mais complexas as decisões, mais necessário é ter independência e competência da equipe. Os que com ele vão trabalhar sabem que têm um líder respaldado por uma consagração popular e dono de sua missão. Nada de pensar em vira-lata: líder é líder e se não for, com os ventos do pessimismo que sopram no mundo todo, estamos num beco sem saída. Se alguém tem medo da personalidade forte de Hillary Clinton, não parece ser Barack Obama.

*José Sarney é ex-presidente da República, senador do Amapá e acadêmico da Academia Brasielira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa

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